Quarta-feira, 12 de Dezembro de 2007

Amanhecer (te)

Um ténue amanhecer
ia desfazendo e tenebrosa escuridão

As linhas acendiam-se aos poucos
e os movimentos ganhavam vida

Nossos corpos atraiam-se

Nessa sede de anos e vidas
meu lábios deslizaram na profundeza de teu corpo
minha língua te lambia
minha boca te sorvia

Parámos o tempo e o espaço

Cruzamos pernas e braços
esmagamos nossos peitos e corações

Agarramos cada pedaço de carne
trocamos narizes e odores
bebemos salibas
respiramos o mesmo ar
comemo-nos
mastigamo-nos
digerimo-nos

Percebemos que somos orgia
fermento fervente sem cessar
desejo insaciado
vontade de viver
e de matar

Percebi que já não vivo sem ti...


Manuel Neves
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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Recauchutado

Trabalhar sem pensar
o passar de horas loucas
contidas de esforço e sofrimento...
Sem poder dizer de mim,
máquina que não pode parar.

Intorrogo as nuvens da incerteza
e continuo mudo, secreto...

É duro este tempo que me fere a alma...

Deixo correr o que sou...
Sinto novas mudanças que se aproximam.
Já nada pergunto... faço.

Preparo com a força dos meus braços
um novo caminho
mais aberto e extenso.

O futuro me preenche
num concreto vazio
de novas conquistas
nesta confiança que em mim deposito.
 
Manuel Neves
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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007

AMAduraR

Sei como é difícil mudar
por mais errado que se esteja,
há sempre o peso da rotina,
da necessidade instalada em nossas vidas.

Já não nos basta o simples ar para respirar,
nem nada poderá nos saciar esta sede,
nem matar esta fome.

Não passamos destas meras latas de consumo,
drogas que nos viciam desde a raiz
até ao mais alto desta atmosfera artificial.

Mas, a vida é uma batalha sem fim,
uma busca infrutífera de força e coragem
numa luta por aquilo que somos,
aquilo que queremos,
aquilo que achamos justo.

Contruindo uma vida
dando sentido ao tempo
nesta passagem súbita
que deixamos na terra.

Tudo é real
e está nas nossas mãos.

Amar não é transformar
nem aceitar...
Amar é amar,
acreditar na mudança...

Viver é esperança.
 
Manuel Neves
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Domingo, 9 de Dezembro de 2007

Amor e carne...

Tudo se resume à questao da matéria: orgânica e física; metafísica e espiritual. Pela vertente científica ou pela visão individual vista por cada um de seus prismas e interpretada pela vivência e experiências empíricas de cada um. Talvez se trate apenas do alcance do pensamento, nessa capacidade de ver para além das coisas e dos tempos, como algo que se transforma atraves dum percurso que tantas vezes nos transcende. Algo para além da lógica como um sentimento de insatisfação permanente. Como se não nos contentassemos a este aglumerado de células, conjunção de orgãos, aparelhos funcionais, irrigações internas, vida em estado bruto...e buscassemos compreensão atraves dum abstraccionismo que redunda sempre entre o absoluto e o relativo, numa fuga ao universo real. Encerrando-mo-nos por dentro, fazendo do impossível inexistente um objectivo cheio de subjectividade.
 
Quando não somos deuses, baseá-mo-nos num Deus comum maior capaz de abranger todas as nossas dúvidas e angústias, ânsias e necessidades. Há algo de sagrado e divino nesta compreensãode humanidade, onde, ao nos limitarmos à abertuda do conhecimento, criamos um abismo de intolerância e desumanidade.
 
Ao desejarmos ser naturais, estamos a ser anti-naturais, ao prever o inexistente, induzidos no engano de que uma crença ou vontade se superioriza à realidade dos actos, formas e factos. Essa falsa consciência, herdada de outras gerações, de que tudo podemos alterar dentro duma esfera do bem e do mal, carece de inúmeras bases e solidez racional numa tese plena de equívocos e más formações.
 
A profundidade do pensamento nunca se pode alienar do sentimento e intuição que lhe deu origem. Criamos nossos dogmas em conceitos de felicidade, ambição de poder, estados metafísicos em avançadas metamorfoses, onde o lado humano deixa de ter predominância. A nossa natureza é egoísta em todos seus sentidos, somos levados a isso numa necessidade de adaptação a um sistema em que perdemos cada vez mais a nossa autonomia, perdemos a nossa mais pura natureza, pelo medo indiciador duma loucura ou anormalidade em tememos a rejeição, sujeitando-nos a essa descaracterização, numa espécie de sacrifício interior, perdendo muito da nossa natureza de homosaphiens em favor dum novo "homotecnocrata". Sem se aperceber o homem inventou as suas proprias algemas que o impedem de viver seus sentimentos em plenitude, para para ser maquievélico e delimitado.
 
Preferimos a imagem que os outros vêm de nós do que assumirmos os sentidos que nos afloram o corpo. Fechamos os olhos em alma cegas e penitentes ou em espíritos abnegados.
 
Falar de amor tornou-se, mais do que uma necessidade, numa espécie de comércio do corpo, onde nos iludimos na irrealidade duma alma abençoada, numa obrigação moral inconsequente, desistindo dos sonhos que podem nos projectar a vida.
 
É, portanto, absolutamente necessária esta noção de que somos carne, somos instante, somos a reacção natural da nossa natureza capazes de caminhar, agir e pensar por nós mesmos. Só assim, descobrimos todas as acções e reacções, relações e amoções, dores e satisfaões que nos levam a um sentir a vida pleno e realizado. Tudo depende dessa libertação física e mental. Sem estereotipos que nos impeçam a exterioirização do ser se sentir.
                                                                             (continua)
 
                                         Manuel Neves
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Sábado, 8 de Dezembro de 2007

Poeta sem classe

Sou um poeta sem classe
sem o olhar altivo das semáforas
nem o sorriso seguro do futuro
 
As minha palavras estão sujas
têm as marcas das crianças vadias
e das prostitutas perdidas
 
Tenho este olhar mendigo e assassino
que não consigo esconder
 
Em mim reflectem-se todos os impossíveis
não existem estradas com rumos
nem finais felizes
 
Sou um poeta sem classe
de bolsos vazios e peito carente
 
Sou o homem e a sombra
o pescador de desertos
o herói sem nome
o sonho sem horizonte
 
E este descontentamento que me faz escrever
 
Sou um poeta sem classe
cidadão sem passaporte
abutre de suas próprias entranhas
um morto ressuscitado
respirando a angústia da humanidade
 
Sou esse poeta sem medo
de enterrar os dedos no sofrimento
de olhar o céu e o inferno
e queimar o corpo nas labaredas
dos desejos insaciáveis
 
Sou um poeta sem classe
profano da paz e do equilíbrio
imperfeito como o deus que não encontrei
e a mulher que não soube amar
 
Sou um poeta sem ser
com voz de vento e tempestade
gelado no tempo
onde as palavras se imortalizam...
 
Manuel Neves
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Sexta-feira, 7 de Dezembro de 2007

Isto!

Eu não queria escrever assim,
quando a dor e a raiva se misturam;
e as cores perdem sua luz;
e as vidas como velas
se esfumam
e apagam...

Não, eu não queria este momento
em que o tempo se recusa a passar
e me tortura como um açoite cruel
sem amor nem razão...

Não queria escrever isto.

 

Manuel Neves

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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

Amar sem tempo...

É nesta angústia que se perde no tempo
que encontro o amor
- refúgio de todos os sentimentos.
 
Este saber infiltrado no instante presente
onde o sofrimento duma ausência ou
a vibração do objecto
- ância de todos os anceios -
fazem desestabilizar o equilíbrio do ser
inconstante e instável.
 
Entre o realizável e o espaço infinito do querer
existem sempre os "mais":
distâncias jamais alcançáveis;
desejos jamais satisfeitos;
palavras e pensamentos que se esfumam
pelos enganos naturais do ser
na sua mutação do tempo e do espaço.
 
E surge o amor...
Que tudo apaga, tudo coloca num plano secundário.
Como uma emergência do corpo, coração e alma.
 
O amor só tem forma na sua urgência.
Não sabe esperar.
Despedaça-se contra as paredes do desespero
e, - quando o coração se destroça, o corpo se agonia e a mente enlouquece - deixa irradiar a sua luz mais cristalina
que nos enche a vida
de ilusão e de esperança.
 
Manuel Neves
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Quarta-feira, 5 de Dezembro de 2007

Sem ti

Esta noite não sonhei, meu amor
Fui atormentado pelos meus fantasmas
Mergulhei nessa terrível tempestade
Onde somos velas rasgadas e fustigadas

Encontrei-te debaixo da neblina
Eras um anjo nu e sem asas
E eu o teu carrasco

Esta noite não sonhei, meu amor
Vendei meus olhos com farpas de sofrimento
Condenei-te a seres o diabo deste inferno
Horizonte iluminado de vida sem saída

Esta noite quis amar-te e tocar-te
Procurei-te no meu escuro
Crucificando-te

Esta noite eu não sonhei, meu amor…
Abri as chagas do meu peito
E em ti chorei…

Manuel Neves

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Amar (te)

Por mais que active em mim
todos os mecanismos de auto-controlo
sempre me perco no tempo em que te amo

Amar é sinónimo de descontrolar
perder-me de tudo
num tempo sem cálculo nem razão

E ao mesmo tempo que te quero mais que tudo
sinto que te posso perder por tanto te querer

Manuel Neves


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Terça-feira, 4 de Dezembro de 2007

A folha branca

A folha branca... esperando.
O olhar trespassando a janela...
A mão trémula.
O outro lado do tempo.
Parado, incerto, repetitivo...

 

A inconstante insatisfação
do sentir perdido...

 

Este labirinto de ideias,
buscas possíveis impossíveis;
sonhos reais irrealizados;
amores extintos renascidos...

 

A carne faminta de outras carnes.
Calor e chama fumegantes.
Pinceladas duma alma sufocante.

 

Esta forma imperfeita de ser
que me massacra o movimento
e desvia por novas incertezas
sem rumos definidos.

 

Neste desejo de viver
encerrado em abismos de esperanças...

 

Este infinita espera dum outra vida;
duma outra era que ainda não é...

 

Este rio de sangue
                   manchando
                                      a folha branca
                                                             esperando...

 

Manuel Neves

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publicado por A flor da pele às 21:15
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"Aquele que possui o teu tempo, possui a tua mente.
Muda o teu tempo e mudarás a tua mente.
Muda a tua mente e mudarás o mundo."

(José Argüelles)

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